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sexta-feira, 30 de maio de 2014

ENTREVISTA COM DRª JOANA FREITAS A PSICÓLOGA DAS AMADORAS

Joana Freitas,  é psicóloga e tendo começado a trabalhar com a Academia de futsal do Boavista tem um projecto ,que visa dar um apoio global a todas as modalidades amadoras do Boavista. Com esta entrevista, tentaremos compreender melhor esse objectivo e conhecer a doutora.

Quem é a Joana Freitas?
Sou psicóloga, formada em psicologia pós graduada em recursos humanos, trabalho em consulta em Santa Maria da Feira e, neste momento, estou a fazer voluntariado no grupo de autistas no Porto.

Isso particularmente e no Boavista?
Tenho dado apoio a alguns atletas da academia e consultas no departamento de futsal.

Como nasceu a ideia dessa colaboração com o Boavista?
Essa colaboração iniciou-se quando eu entrei como seccionista para a academia acompanhando o meu marido (Paulo Freitas) entretanto, tinha uma clinica que fechou e não tinha, no imediato, local para continuar o trabalho com alguns jovens e, trouxe-os comigo e alguns ficaram aqui comigo.

Vamos tentar esclarecer alguns pormenores. Em que consiste o seu trabalho?
Depende da problemática dos meus pacientes. Se são hiperactivos, se têm algum tipo de perturbação de personalidade se têm alterações de comportamento, se são problemas escolares ou familiares, etc… Depende. Eu tenho especialidade em hiperactividade e dificuldades de aprendizagem.

Quem faz uma primeira triagem sobre os jovens, são os dirigentes, os familiares ou é a Doutora que os vai observando?
Neste momento, tenho dois jovens a quem acompanho na academia. Um já o conhecia e trouxe-o para cá, porque era meu paciente fora do Bessa. O outro, foi a mão que falou com o meu marido, este miúdo é hiperactivo.

Um fenómeno muito comum entre os jovens?
Sim, é verdade e aqui a academia tem vários.

O seu trabalho está a ser feito em exclusividade para o futsal?
Neste momento, tenho trabalhado com o futsal, mas o objectivo é trabalhar com todas as modalidades, continuo a aguardar contactos de outros departamentos.

Como explica que ainda não tenha sido contactada por alguém de outras modalidades?
Penso que haverá um problema de dar divulgação do nosso projecto entre as amadoras. Já me colocaram por diversas vezes a questão se trabalho só para o futsal. Já disse e repito, que não. Sempre me disponibilizei para as amadoras, porque acho que é um trabalho extensivo ao interesse de todos os jovens.

Como é que qualquer interessado “chega” aos serviços da doutora?
Através da secção de ginástica, onde já foi entregue a cópia de um protocolo de compromissos entre mim e o Boavista, na pessoa da directora Sara Monteiro. Encontrarão lá todos os meus contactos, ou através de qualquer membro do futsal. De uma forma ou outra, será fácil chegar ao meu contacto.

Vamos falar de algo que toda a gente questiona. Que encargo terá cada paciente e quem paga o seu trabalho?
São os pais que estão a pagar as consultas, só que a um preço muito mais baixo que o habitual no exterior.

Podemos conhecer esses valores?
 No Porto, geralmente as consultas variam entre os trinta e cinco e os cinquenta euros, enquanto aqui no Boavista, custam vinte.

Onde se realizam as consultas? Espaço, dias e horários?
Actualmente no departamento de futsal, embora desejo alterar para outro espaço dentro dos espaços das amadoras, porque – mesmo agradecendo a atenção e disponibilidade de todos – considero não ter as condições ideias para esse trabalho, mas enquanto não encontrar outro espaço continuaremos no departamento de futsal. Tenho vindo ao sábado à tarde e até, ao domingo de manhã e nesse horário, fui informada que as instalações da ginástica estão encerradas, que era, inicialmente, o espaço que estava idealizado para receber os pacientes. Quero registar que tenho as chaves do futsal e agradeço toda a disponibilidade, mas acho que deveremos alterar condições e espaço até para não se transmitir, a ideia errada, que só recebo miúdos do futsal.

A divulgação, passa em seu entender por um novo espaço?
Sim, porque já me apercebi, que as modalidades são autónomas (quase independentes) umas das outras e, para trabalhar com todas, terei que ter um espaço independente… digamos assim! (sorriu).

O povo liga (erradamente) psicologia a psiquiatria e temos ao invés de ser considerados pacientes serem tratados como loucos. Não teme que por essa inibição as pessoas não procurem o seu trabalho?
Primeiro, não tem nada a ver uma especialidade com a outra, embora entenda a sua questão. Já acontece menos, mas ainda acontece a situação de as pessoas terem vergonha de ir ao psicólogo, por essas razões. Mas já acontece menos! Mas ainda noto que os pais temem levar os filhos ao psicólogo, com medo que os filhos fiquem com rótulo.

Que mensagem quer divulgar?
O psicólogo não é um bicho. Apenas ajuda os miúdos (e adultos, mas eu estou mais vocacionada para os jovens, crianças e adolescentes) a ultrapassarem dificuldades pontuais e mesmo de área desportiva.

É uma doutora desportiva?
Quando completei a minha licenciatura, tive que fazer a tese de curso e escolhi a área de desporto que é a área que mais gosto. A psicologia do desporto tem muito quer a nível motivação de aceitação e compreensão de resultados etc… tudo envolve aspectos psicológicos.

Num mundo cada vez mais difícil e competitivo. Concorda?
Totalmente, muitas vezes os adultos passam ao lado (ou julgam que passam) de certos problemas mas para os miúdos as coisas são bem mais difíceis. Mesmo a nível de competição, os miúdos não estão preparados nem para perder, nem para ganhar. Esta é a sensação que noto quando assisto a jogos entre eles.

 que me fala nesse aspecto, há algo que eu sempre notei. Quando num jogo de adultos uma equipa é claramente superior à outra e atinge um resultado dilatado, quase que pára… enquanto os miúdos, na mesma situação, tentam mais golos para mostrar a sua clara superioridade, roçando a humilhação adversária. A que se deve tal facto?
Isso é real. Os miúdos não têm essas noções, as ideias bases da competição. Uma das coisas que tenho trabalhado aqui na academia com o ajuda do meu marido e que continuamos a analisar em casa é a questão das regras. Os miúdos não têm regras. Eles pensam que podem falar para os treinadores/directores de qualquer maneira. Não podem! Os miúdos têm que ter regras de base. Nós estamos a tentar alterar esses comportamentos aqui na academia.

Antigamente, notavam-se diferenças de vestir e de comportamentos entre várias zonas. Agora viver na cidade ou na aldeia é igual. Nota-se que os miúdos e adolescentes, não usam guarda-chuva, que sentam nos locais das bagageiras em vez de se sentarem nos bancos. Mas todos, mesmo todos fazem o mesmo. Como se explica um comportamento tão copiado?
Funciona por imitação! No comportamento humano, o comportamento gera, comportamento. É a máxima da psicologia… comportamento gera comportamento. Vai por modelos. Repare se os pais fazem determinada coisa os miúdos vão, por instinto, imitar os pais. Se têm um professor ou um treinador que considerem modelo, vão ter a tendência para o imitar. E quem não cumprir as “normais instituídas” pela maioria (boas ou más) é posto de lado.

Na minha vida profissional contacto muito com o ambiente escolar, que neste momento – passe o exagero – se aproxima do que nos transmitido em filmes do ambiente prisional. Grupos, imposições de comportamentos, exclusões etc… concorda com esta visão ou sou pessimista?
Nada tem a ver com os professores. São os miúdos que formam os grupos e outros - lamentavelmente – são marginalizados, ou porque não se integram nos grupos, ou porque não têm roupa da marca X, ou porque não usas as sapatilhas Y. eu tenho em santa Maria da Feira um miúdo que é vitima de Bulling infantil, cada vez menos os miúdos são e estão educados para viver na sociedade e para a sociedade.

As escolas têm psicólogos?
Sim mas a verdade é que muitos psicólogos foram retirados das escolas para se diminuírem despesas!

E os que estão ficam dentro de um gabinete, quando o mundo se passa no recreio…
Trabalhar - e eu já trabalhei – num agrupamento é muito difícil, embora eu entenda a sua opinião.

Vamos voltar ao Boavista. Quando começou este projecto?
Desde Setembro do ano passado.

Qual a parte que entende por positiva, para já?
A parte positiva. Eu gosto muito de desporto, gosto muito de trabalhar com estes miúdos, faço a parte burocrática da academia em casa, tento ajudar em tudo o que for possível porque me meti voluntariamente neste projecto, não tenho facilidade de estar nos treinos aso sábados de manhã, porque dou formação, mas sempre que posso venho. Acho que os miúdos têm crescido muito e acho que a academia cresceu muito, em quantidade e qualidade.

Voltamos ao mesmo. Falamos de futsal, por ausência e culpa dos outros?
É verdade mas eu aí preciso de ajuda, porque repito, estou aqui para trabalhar com todos e não só com o futsal e desde já estou ao dispor de todas as modalidades amadoras.

As coisas negativas?
As comunicações entre todos os departamentos e escalões, acho que há falta de comunicações interna e de divulgação do nosso projecto. Para além do local para as consultas que considera muito importante, para dar-mos mais condições aos pacientes e acompanhantes e para transmitirmos a ideia real que não trabalho só para o futsal. Isto é muito importante. Outra coisa que falha e que já propus realizar é uma formação de treinadores e dirigentes, no âmbito de comunicação e gestão de conflitos e de motivação desportiva.

Doutora, dentro de alguns meses faremos um novo balanço desse projecto

Entrevista de

Manuel Pina Ferreira