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TERMINADA MAIS UMA ÉPOCA DESPORTIVA, DESEJAMOS A TODOS ATLETAS E SEUS FAMILIARES UMAS BOAS E MERECIDAS FÉRIAS, DA NOSSA PARTE CONTINUAREMOS O TRABALHO PREPARANDO A NOVA ÉPOCA DE 2019/2020. BOAS FÉRIAS


quarta-feira, 3 de junho de 2015

ENTREVISTA DA SEMANA - PROFESSOR CARLOS SIMÃO, COORDENADOR DA FORMAÇÃO DE VOLEIBOL

O Departamento de Voleibol, contratou o Professor Carlos Simão, para coordenar toda a formação axadrezada, numa clara aposta no futuro.
Para conhecermos melhor todo o projecto, realizamos uma entrevista, na qual o novo técnico axadrezado se apresentou pessoalmente e deu a conhecer, ideias e objectivos.


APRESENTAÇÃO

Vamos apresentar o Carlos Simão. Qual o seu passado no Voleibol?

Comecei a praticar Voleibol, com oito anos de idade, em Vila Real, cidade da qual sou natural. Joguei sempre (dezassete anos) até aos vinte e cinco anos, altura em que terminei a faculdade.

Façamos um resumo da sua carreira, para todos o conhecermos melhor…

Como disse, joguei até aos vinte e cinco anos, mas com a idade de dezasseis, tive a minha primeira experiência como treinador, também em Vila Real, num escalão de formação feminino. O Voleibol feminino, já nessa altura, tinha grande tradição em Vila Real e, por exemplo, o Boavista, deslocou-se várias vezes à cidade, com a sua equipa sénior, para os campeonatos nacionais. Foi, desta forma, que me iniciei como técnico, no ano de mil novecentos e oitenta e seis.

Posteriormente, deixou de treinar equipas de formação, passando para o esclão sénior. Como se processou essa alteração?

Em noventa e dois, o Castêlo da Maia, faz-me o primeiro convite, que não pude aceitar. Estava a terminar o curso e não pude vir. Passei a representar o Castêlo, dois anos depois, para a época de 94/95. Fui treinador adjunto, com o Professor José Moreira, trabalhando com a formação masculina. Também aqui, aconteceu uma alteração, porque em todos anos anteriores trabalhei sempre com formação feminina.

O que recorda dessa primeira experiência?

Foram três anos muito bem passados. Ganhei um título Nacional de Iniciados. Na qualidade de adjunto, ganhamos uma Supertaça e daí “salto a para a Académica de Espinho.

Falemos então da experiência em Espinho. Quantos anos, esteve em Espinho?

Estive oito anos consecutivos e oito anos fantásticos! Aliás, por todos os clubes onde passei, vivi sempre experiências muito boas.
Regressemos a Espinho…
Nesses oito anos, conquistamos um título Nacional de Juniores e um vice-campeão. Nesse período, ajudo a equipa sénior a subir à primeira divisão nacional. Tenho assim, uma subida de divisão.

Ao que eu sei, depois dessa fase, ingressa no Boavista. Confirma?

Confirmo. No ano de 2005/6, ingresso no Boavista para trabalhar com o Professor José Machado, na equipa sénior. Trabalhei com o José Machado, durante um ano. A Dani e a Marta Massada, foram, inclusive, minhas atletas. A Dani, já tinha sido minha atleta no Castêlo da Maia. Estive, somente um ano, porque o Professor José Machado saiu. Eu fui convidado para assumir o cargo principal, mas não aceitei, por solidariedade com o Professor, dado, que foi ele que me tinha convidado para vir para o Boavista. Expliquei isso ao falecido José Manuel Palmeira, ele e a Graziela, entenderam muito bem a minha posição.

Está só uma época, mas sai sem problema algum?

Exactamente. Como disse, expliquei aos Directores a minha razão e saí a bem. Conversamos, como pessoas sérias e o José Palmeira aceitou a explicação e todos continuamos bem.
Segue-se…?
Tive um convite do Ribeirense, que não pude aceitar por motivos profissionais, por não ter conseguido o destacamento para os Açores. Foi assim, que ingressei no Esmoriz. Estive lá dois anos, o primeiro nos Juniores e outros nos seniores. Depois em dois mil e oito, vou para o Gueifães.

Onde estava actualmente?

Sim, após sete anos maravilhosos e agora regresso ao Boavista, após quase trinta anos de carreira no voleibol.

Qual a sua profissão?

Sou professor de Educação Física na escola de Águas Santas e resido na Maia.
BOAVISTA FC

Como se processa o regresso ao Boavista?

Foi um pouco… por acaso, mas com muita influência do Professor José Machado, que em conversas que tivemos ao longo da época, me foi apresentando o desafio. Eu treinava as seniores do Gueifães, fomos adversárias do Boavista, neste campeonato.

Ele diz, que foi você que lhe estragou o campeonato. O Boavista, andava muito bem e no jogo com o Gueifães… perdeu-se e demorou a reencontrar-se…

Tenho que reconhecer que ganhamos por 3/2 com um erro do árbitro. Temos que reconhecer, mas nada mais que isso.
Voltando ao convite…
Falamos várias vezes. O Professor, sempre me falou da formação do Boavista e me foi desafiando. Devo dizer que saí do Gueifães de uma forma muito cordial depois de sete anos maravilhosos. E em total harmonia com a direcção.

O que pesou?
Foi-me apresentado um desafio. Eu tenho quarenta e sete anos e não resisto a um desafio e continuo a gostar de enfrentar novos desafios.

O Boavista é um desafio para si?

O Boavista, foi em outros tempos, uma grande potência do Voleibol Feminino de Portugal. Isso durou até a “infeliz” destruição do Pavilhão Acácio Lelo. Nessa altura, notou-se uma quebra no departamento. Mas, eu acho, que a mística está lá dentro. Está apenas um pouco adormecida. 
Não sou nenhum mágico, mas venho imbuído num espirito lutador e agressivo, que me caracteriza e vou tentar ajudar a reerguer o Boavista, no Voleibol.

O professor vem exclusivamente para coordenar a formação?

Em princípio o convite que me apresentou o José Machado era para ir trabalhar para as seniores, mas uma das coisas que me dá enorme prazer, é ver as miúdas crescer, implementar modelos de jogo e sistema de formação muito bem cimentadas. Por isso, recusei as seniores e venho exclusivamente para a formação. Vou ser o coordenador de toda a formação desde o minivoleibol até às juniores.

Só como coordenador?
E treinar uma equipa de formação, porque eu disse, logo, que jamais conseguiria ficar com um cargo meramente administrativo. Caracterizo-me a mim próprio como um treinador de campo.

Objectivos? A curto e médio prazo?

O plano tem duas fases. O primeiro passo foi apresentar o nosso projecto aos pais das atletas. Tive conhecimento de um número considerável de saídas de atletas na época passada. É meu princípio, defender que todas as atletas devem tomar o rumo que querem e não devemos andar atrás, nem nos rebaixarmos por decisões que atletas ou pais tomem. As que ficaram, são as que temos e com elas vamos trabalhar. Temos encetado contactos, para estabelecer protocolos com várias escolas para podermos recrutar atletas e massificar o minivoleibol.
Tenho trabalhado, há poucos dias, mas temos feito uma divulgação por vários meios para recrutar atletas e temos tido uma resposta bastante positiva. Esta fase, será a de recrutamento e massificação. 
É evidente, que as atletas que já passaram pelo Boavista e que queiram regressar, não vejo, de todo qualquer problema. Espero que vejam nesta nova imagem, que estamos a criar uma boa prosperidade em termos desportivos.

Acompanhamos essas saídas, mas ficou sempre a ideia, que não havendo zangas, mas que muitas miúdas não quiseram apostar mais ,sabendo que os trabalhos seriam mais exigentes. A juventude convive “demasiado bem” com a derrota?

O que aconteceu no passado, nem sei nem me interessa. Eu sei,muito bem, o que fazer para que os clubes se redimensionem, porque em todos os clubes, por onde passei, conseguimos crescer. É óbvio, que o mérito não é só meu, é de toda a estrutura do clube, desde treinadores a directores, mas tem que se implementar toda uma disciplina de treino. Nos poucos treinos que já vi no Boavista, vejo ambição e querer, nas atletas mas vejo, pouca disciplina de treino.

Qual o tempo que precisa para colocar uma equipa a jogar no Nacional? Um/dois anos?

Pelo que vi e repito, foi pouco, considero que temos uma, ou até mesmo duas, equipas que trabalhando bem, têm (já) condições para lutar por essa ambição na próxima época.

Podemos saber a que equipas se refere?

A equipa de Juniores e a futura equipa de Cadetes, que é este ano a de Iniciadas. São duas equipas que já estão estruturadas, têm conhecimento e experiência da competição, estão muito bem treinadas e temos que apostar como objectivo dessas duas equipas atingir o campeonato Nacional, mesmo que depois na prova as coisas, possam não correr muito bem. O principal objectivo é entrar no Nacional.

Nos outros escalões. Que há a fazer?

Considero. Que precisamos de fazer um trabalho de raiz, especialmente nos escalões mais baixos, e esperar dois anos, para que as coisas apareçam e eu, espero e aposto que vão acontecer.

DESPORTO EM PORTUGAL

Com o conhecimento adquirido na modalidade, somado com o conhecimento profissional, como vê o desporto de formação em Portugal, principalmente o Voleibol?

Divido, em duas partes. O processo formativo já não é encarado com era antigamente. Agora, há muitas ofertas e muita diversidade de ofertas, que fazem concorrência ao desporto em que os jovens são facilmente assediados… temos mesmo, muitas coisas. Temos um contexto sócio/cultural completamente diferente do passado. Precisamos de muito mais trabalho para cativar para que os jovens e as miúdas se liguem ao voleibol.
Por outro lado, eu acho que as modalidades amadoras em Portugal são muito pouco apoiadas e divulgadas. Basta ver um jornal, para se verificar que noventa por cento das notícias somente se fala de futebol e, num cantinho… se fala de todas as modalidades amadoras. Nós somos campeões europeus de Judo, de desporto adaptado de ténis etc… o que se divulga? Futebol, futebol, futebol. O ABC, esteve numa fase final do Europeu de andebol e ninguém falou. A própria Comunicação Social, não ajuda muito, nem as Modalidades Amadoras, nem o desporto feminino, nem o desporto de formação.


Antigamente havia mais apoio?

Claramente. Eu lembro-me, de ainda jogar e ver nos jornais notícias e resultados dos Campeonatos Juvenis, juniores etc… e agora, nem de voleibol de seniores aparece. Aparece, agora, ao domingo os resultados dos seniores masculinos e na segunda-feira num cantinho os resultados do campeonato seniores femininos. Enquanto, isto, não se alterar, não pode haver uma massificação, porque é uma política própria dos nossos governos, não cultivar uma cultura desportiva.

Isso, incomoda-o como professor?

Imenso e vou dar-lhe um exemplo. Estou muito revoltado com esta decisão do actual governo, de retirar a classificação da Educação Física, no ensino secundário, para média final de acesso ao ensino superior. Isto, retira a responsabilidade aos alunos, desvaloriza a Educação Física e desvaloriza, acumulativamente o desporto.

Comparando com os vizinhos Europeus em que os alunos são libertos do período escolar, num horário que lhes permite praticar desporto e nós “prolongamos” o tempo escolar para além das dezoito horas. Como classifica isto numa frase?

Uma hecatombe! Um terramoto! Uma tragédia! É anti natura.
Eu recordo, que no meu tempo eu tinha aulas de manhã e a tarde livre. O meu filho tem aulas das nove às dezoito. Quando o certo seria terminarmos a parte curricular, até às quatro, quatro e meia, para depois eles “irem” para o piano, para a música, para a pintura… para o desporto. A realidade é que os miúdos, e eu, como professor, terminamos a escola pelas dezoito e trinta e depois temos que ir treinar chegando a casa pelas vinte e uma , porque para se conseguir atingir o Alto-rendimento, tem que se treinar todo os dias. Tudo isto, não é compatível com os horários do pais… tudo, é muito complicado.

Comente esta frase. Porque não investir nos jovens poupando no futuro nos homens?

Uma verdade indiscutível. Com a actual política desportiva, aumentam os casos de obesidade, problemas de miúdos com problemas cardiovasculares, de diabetes etc. tudo isto de uma forma precoce. Consequência disso,  o governo acaba por gastar duas vezes mais dinheiro que apostando numa alteração de cultura desportiva. Já disse na reunião com os pais, a melhor forma de os jovens se socializarem e prepararem para a vida, é praticando desporto.

Desiludido?

Como professor, vejo cada vez mais os alunos a não gostarem da prática desportiva. Verifico, não lhes “apetecer” praticar as aulas de educação física e só o fazem porque são obrigados, contrariando o passado em que as pessoas o faziam de uma forma muito mais interessada que agora.

Foi a visão de um professor. Qual a de um treinador?

É diferente no que respeita ao treino. Enquanto na escola o aluno é obrigado a estar lá, no treino não é! Logo, só está no treino quem quer. Por isso, quem treina tem que cumprir normas e disciplina. Quem não cumpre é convidado a sair. Ou sai quem não cumpre ou sai, quem orienta os treinos. Se acabam por ser os treinadores a terem que sair, no caso de a direcção assim decidir, ficam os atletas a “brincar” aos treinos, levando o desporto de competição de uma forma lúdica. Quem quer o desporto de uma forma lúdica inscreve-se em ginásios e levam tudo na brincadeira e de forma descontraída. Na competição, não há lugar para quem pense assim.

É o tal convívio pacífico com a derrota?

No desporto tem que haver objectivos, têm que se cumprir regras. Ainda, para mais, num clube, como o Boavista, com tradições enormes no Voleibol nacional.

Esteve sete anos num clube. Vem para o Boavista por mais sete?

Saí de um clube maravilhoso de bem com todos e com saudades de todos. Ingressei num grande Clube Nacional. Tenho um projecto que é ambicioso e no qual me dedicarei completamente. Para além de um desafio é uma honra estar no Boavista. Enquanto as pessoas, acharem que sou útil, estou disponível com a minha característica de sempre. Quando, verificar que nada mais posso fazer, que os objectivos estão cumpridos, ou que estou a mais, saberei retirar-me. Mas até lá estou de corpo inteiro no Boavista.

Entrevista de

 Manuel Pina