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TERMINADA MAIS UMA ÉPOCA DESPORTIVA, DESEJAMOS A TODOS ATLETAS E SEUS FAMILIARES UMAS BOAS E MERECIDAS FÉRIAS, DA NOSSA PARTE CONTINUAREMOS O TRABALHO PREPARANDO A NOVA ÉPOCA DE 2019/2020. BOAS FÉRIAS


sexta-feira, 18 de abril de 2014

GRANDE ENTREVISTA COM IVAN DIAS

Ivan Dias, é um dos melhores futsalistas que joga(ra)m em Portugal. Actualmente de xadrez ao peito, bate todos os records de longevidade. Homem de ideias rápidas, directas e assumidas, deu-nos a conhecer o cidadão, atleta, chefe de família e muito mais… numa entrevista longa mas profunda sem fugir ou temer as questões mais difíceis. Vamos, então, entrar no mundo deste “Monstro Sagrado” do futsal nacionaln numa entrevista longa, mas completamente merecida de ser lida.



O CIDADÃO/ATLETA
Quem é o cidadão Ivan Dias?
Nasci no Rio de Janeiro, mais concretamente no Niterói e tenho quarenta e um anos (sorriu)
Quando chegaste a Portugal ?
Vim para Portugal, me noventa e seis.
E vieste para jogar futsal ou por outra razões?
Vim exclusivamente com atleta e para jogar futsal. Já tinha jogado na Liga de Espanha depois de ter vindo do Brasil para Espanha.
Em Portugal, vens para jogar no Miramar e em poucos mais clubes jogaste…
Sim em Portugal, comecei pelo Miramar, depois de cerca de cinco/seis anos, o Freixieiro, a Académica e actualmente o Boavista.

Lembras-te quantos títulos conquistas-te?
No Miramar, entre Taças e campeonatos, creio quatro ou cinco, depois uma Super-Taça no Freixieiro e agora o título com o Boavista.
A tua carreira na Selecção nacional. Quais os teus momentos mais importantes?
Estive em três mundiais e quatro Europeus.
Tiveste muitos anos a representar a selecção das quinas?
Sim vários anos.
Alguma vez foste o capitão de equipa?
Somente no Europeu que se disputou em Gondomar.

PERIPÉCIAS DA VIDA
Recordas-te de uma reunião com determinado clube em que eu estive presente como Director Geral acompanhando o Presidente, acontecida na Póvoa de Varzim, em que com quase tudo decidido, alguém, exteriormente, colocou em causa a tua contratação por na altura teres uma lesão no pé e já seres “velho”. O que tens a dizer onze anos depois e ainda a jogar?
Claro que me lembro… (hesitou e depois passou ao ataque). Primeiro, acho que o Presidente foi pouco inteligente, porque para reunir com jogador e conversar alguma coisa, não tem que estar com garrafa nem copo de uísque na mão. 
Ponto número dois, se quer contratar um jogador, já tem que ter previamente, conhecimento daquilo o jogador vale e sobre o que pode dar ou não. Não pode basear-se se o jogador está lesionado ou na idade que tem. Se o jogador vale, conversa com ele, caso contrário não o contacta. Temos um exemplo recente do Cardinal.
Sobre a lesão que teve?
Exacto. Todo o mundo contestou ele ir para a selecção porque não estava a jogar, que vinha de uma lesão. O certo, é que ele foi ao mundial e embora não tenha ido no máximo da sua potência, foi ao mundial e dali saiu para uma grande equipa de Espanha. Por isso que eu digo, esse facto de estar machucado, de estar tocado isso, vai muito do jogador, vai muito do trabalho que tem, via muito do treinador que tem, vai muito da conversa com os directores etc… isso é que é importante.

Eu meti esta questão para atingir outra. Como explicas que com a idade que tens continues a jogar na primeira divisão numa nédia de trinta a trina e cinco minutos por jogo?
Eu não penso nisso. Faço o que me pedem enquanto me sentir capaz, depois disso, serei o primeiro a dizer que chega. Para já, se jogo, é porque confiam em mim.

Mais um episódio. É verdade que na semana seguinte ias a caminho de Lisboa para assinar pelo Sporting e “desta volta” na auto-estrada para assinares pelo Freixieiro?
Sim é verdade. Eu tinha quase o contrato assinado com o Sporting e dentro de um acordo feito entre o meu presidente do Miramar e o Sporting. Que se baseava numa dívida de alguns meses que o Miramar tinha comigo. Os dois presidentes, concordaram que essa divida seria parcelada pelos meses do contrato que ia fazer com o Sporting. Entretanto, aconteceu uma reunião entre o presidente do Freixieiro e o presidente do Miramar, desconheço onde ocorreu a reunião, mas sei que o presidente do Freixieiro assumiu que pagava a quantia toda de uma vez se eu assinasse pelo Freixieiro. Assim voltei para trás e assinei pelo Freixieiro.

Se não estou enganado, nessa fase tu jogavas duas variantes de cinco em simultâneo?
Jogava futebol de cinco e futebol de salão, ao mesmo tempo, é verdade. Fiz nestas condições umas três épocas a jogar as duas modalidades.

O BOAVISTA
Há quantos anos vieste para o Boavista e como se processou esse ingresso?
Vim há duas épocas por convite do Buffon (Filipe Miranda) e porque conhecia muitos dos jogadores, mas essencialmente por causa do Buffuon, nosso Director Desportivo. Quando saí da Académica depois da subida de divisão tomei e ideia de acabar de jogar de vez.
E aceitaste?
Depois de muita conversa, resolvi vir para o Boavista pelo prazer de jogar. Hoje o que me dá prazer é jogar. Já não  jogo por causa do dinheiro que ganhava…é mesmo assim (disse como a si próprio). É logico que me davam algum para a gasolina, mas por dinheiro não é. 
As coisas mudaram. Anteriormente, eu vivia do futsal, hoje em dia eu vivo do meu trabalho e jogo por prazer. Eu gosto de futsal e gosto de jogar, enquanto eu conseguir jogar… quando eu vir e as pessoas também vêm, que não vale a pena apostar em mim…
Mas tu vieste para fazer a última época, mas isso não aconteceu. já te sentes um jogador do Boavista?
Desde o momento que eu vista a camisola, eu me sinto jogador do clube, ganhando, recebendo ou não eu sou jogador do clube. Treino e jogo com a mesma motivação de que quando eu comecei a jogar.

Quando se iniciou a época pensavas estar a lutar para o sexto lugar da classificação?
Não pensava estar a lutar pelo sexto, nem entrar os play-offs, isso é um facto, mas pensava que íamos conseguir a manutenção, até porque o plantel tinha a base da equipa do ano passado que ganhou o título e subiu.
Mas que muita gente acusava de não possuírem potencial de primeira divisão…(interrompeu com agressividade e disse)
Isso é especulação! Quando se começa as pessoas vêm os nomes, mas muitas vezes, não são os nomes que ganham os jogos. É a atitude, a entrega e o trabalho, isso é que dá pontos.

Após o Mundial, no recomeço do campeonato e ainda em quinto lugar, o Boavista perdeu uns jogos. Foi um levantar de pé, ou o considerar que a obrigação estava feita?
Não foi nem levantar o pé, nem perder o ritmo, o que aconteceu nos três jogos que perdemos foram situações de jogo. Vejamos. Foi com o Fundão que é uma equipa das mais fortes da primeira divisão e sempre dentro dos play-offs. Perdemos com o Póvoa, num jogo que não joguei por castigo e tinha outro colega na bancada comigo que não recordo quem, que se machucou nos primeiros cinco minutos, depois o Alex se machucou também. Foram muitas as condicionantes que nos fizeram perder esse jogo. Perdemos com o Rio Ave, que é uma equipa composta com jogadores muito experientes e de muita qualidade e alguns são mesmo profissionais, realizando treinos bi-diários e nós fizemos o nosso trabalho. Lutamos, trabalhamos e demos a nossa réplica que é o lema do Boavista, que é lutar para chegar lá.

Falando de treinos. O horário dos vossos treinos não ajuda. Que achas sobre isso?
É muito duro andar meses a treinar neste horário para quem trabalha e para os miúdos que estudam. Dormir quatro/cinco horas por dia, durante meses é muito cansativo.

Dentro do campo, sendo um jogador de referência, ajudas a orientar os teus colegas ou apenas jogas que essa missão é de outras pessoas?
Dentro do campo não dá para ajudar muito e falar com os colegas, isso é possível nos treinos. Nos jogos, eu tento fazer o meu trabalho bem e depois combater as falhas dos outros, para podermos ser um só, para quando eu falhar eles estarem lá também. Lógico que há sempre um comentário, não só com os jovens mas também com os mais velhos… você podia ter feito isto, em vez daquilo, etc… isso é um comentário natural que acontece entre todos no decorrer de um jogo. Ou se pode melhorar, incentivar e corrigir, é nos treinos.

Na próxima época vais continuar?
Já tive uma conversa (riu-se) com o presidente um bocado… um bocado (hesitou e depois de um momento de reflexão, entrou algo duro) eu disse-lhes que têm que me valorizar pelo que eu faço sem olhar à minha idade… ponto número um. Depois têm que valorizar os jogadores que jogam no Boavista, porque o Boavista tem muitos jovens no plantel mas há quem dê muito valor a outros nomes que são mais sonantes, o que não é justo. 
Têm que olhar é para os que estão aqui há dois três anos e mostrando que têm valor para estar aqui. Esses, é que têm que ser valorizados em primeiro de tudo. Primeiro os que cá estão e só depois os outros, é claro que. se os que chegarem forem jogadores de valor, então, muito bem devem ser igualmente valorizados, se for um jogador que tem valor igual aos outros que cá estão não pode ser ressarcido  mais que os que estão aqui, já com provas dadas.

Tens que reconhecer, que ainda és uma referência no futsal nacional. O Boavista sem o Ivan não é tão temido como com o Ivan?
Eu não tenho que ter a consciência disso, as pessoas é que o dizem. Eu faço o meu trabalho, se faço falta à equipa ou não, não sei e isso não é comigo.
Mas voltando atrás. Vais ou não continuar?
Em princípio devo continuar… em princípio.

Consideras cansativo continuar a treinar depois de tantos anos?
O que me cansa realmente e me leva a dizer que não quero continuar na primeira divisão, é o facto de ter de ir a Lisboa de quinze em quinze dias, as viagens é que me cansam. É cansativo, para quem trabalha, para quem se levanta cedo todos os dias, eu durmo quatro horas por dia porque o treino não é compatível para quem trabalha. Quando somos jovens a recuperação é mais fácil, mas agora não é assim.
O José Manuel Leite – presidente do Miramar – dizia que tu mesmo em jovem entravas no carro e dormias, chegavas ao pavilhão, metias-te debaixo do chuveiro e estavas pronot para o jogo. Por isso, nunca gostaste de viagens?
Muitas pessoas dizem que dormir antes do jogo faz mal. Eu sempre contrariei isso tudo. Almoçávamos, eles iam dar uma caminhada e eu deitava-me e dormia e chegava ao jogo e dava rendimento. Isso é de cada um.


A FAMÍLIA
Sendo um português nascido no Rio de Janeiro, constituis-te família no Porto com esposa tripeira (mesma tripeira, digo eu). Terminado o futsal o que vai acontecer, o Ivan leva a família para o Brasil, ou pelo contrário a família obriga-o a ficar para sempre no Porto?
Nem penso nisso, nem penso assim.
Então como pensas?
Eu vim para Portugal para ficar seis meses e já estou cá há dezoito anos. Não digo que não tenho o sonho de voltar à minha terra… tenho! Mas pondero muito, vontade eu tenho. Mas minha mulher tem muito mais vontade de viver no Brasil que eu!  Ela tem uma doença crónica a artrite reumatóide, para ela o tempo aqui é muito mau. As vezes que estivemos no Brasil e quando casamos que foi no Brasil e estivemos lá três meses, enquanto ela aqui toma medicamentos todos os dias lá, durante esse período, tomou um medicamento.

O FUTSAL (ORIGENS E FUTURO)
O futsal português, é na minha opinião um limão espremido, que chega a uma fase e fica por ali. O que falta para dar o próximo salto?
O que falta é o que tinha há seis/sete/oito/nove/dez anos, que era Portugal com saúde financeira. O país com saúde financeira originava que ter clubes como a Fundação, o Instituto, o Freixieiro, o Miramar, depois entraram o Rio Ave e outros. Clubes com condições e com trabalho realizado. 
Muitas pessoas, por vezes contestam, mas nesse período ao começar uma época, perguntava-se quem vai ser o campeão? O Freixieiro, a Fundação, o Miramar, o Sporting? Agora todos sabemos que ao iniciar o campeonato a questão é saber quem o Benfica ou o Sporting?
Mas é tudo por causa da crise?
Não só. De novo as pessoas vão contestar, mas há quinze anos quando cheguei as equipas só podiam ter dois estrangeiros. O que acontecia? Os clubes contratavam esses dois estrangeiros mas investiam claramente na qualidade deles, para fazerem a diferença. Com isso, os jogos eram equilibrados porque todos tinham dois estrangeiros com muita qualidade que ajuda muito num plantel e obrigava a um maior empenhamento de jogadores portugueses com ambições de chegar longe.
As coisas alteraram-se?
A nível de clubes é muito bom ser campeão, mesmo com esta abaixamento de qualidade, mas eu estive na selecção e era frustrante ficar sempre no… quase! Íamos às meias finais dos mundiais e europeus e pensávamos, vamos pegar a Itália, ou Rússia ou a Espanha e já não íamos com a mesma confiança que quando jogávamos com a Croácia. Mas isso, digam o que disserem, porque o nosso campeonato é muito desequilibrado, como já dei exemplo antes, tudo se resume ao Sporting e Benfica de quem nessa altura, nem se falava.

Estiveste a jogar naquilo que todos conhecem por uma escola de futsal, que fez inúmeros jogadores, Ricardinho, André Lima, Toni, Cóco, Pedro Ferreira só para falar nos mais jovens. Consideras o Miramar essa escola?
Sim o Miramar foi realmente uma escola de futsal. E porquê? Porque na época áurea o Miramar tinha poder financeiro e dava condições para todos e não só para os seniores. Desde as escolinhas passando pelo feminino e tendo duas equipas de seniores e equipa satélite. Quando se têm condições as coisas acontecem naturalmente e as pessoas querem estar lá, querem participar, querem estar naquele clube. Tínhamos o Márcio, o Toti, o Gil, todos jogadores referenciados, tinha um treinador referenciado, que era o Beto – tinha também o senhor Jorge - mas tinha o Beto que é um treinador irreverente, diferente de quase todos que já tive, as pessoas acabavam por ver, gostar e assim fazíamos coisas diferentes. Hoje em dia não há isso.
Outra mentalidade?
Sim. Hoje em dia o treinador de seniores não quer saber da formação e diz eu sou dos seniores e acabou. Eu assisti a uma palestra muito interessante antes de um jogo com o Brasil, dada pelo Pêcê que era o seleccionador da selecção brasileira, que agora já não é e que foi campeão mundial. Que nos afirmou, que antes de tomar conta da selecção do Brasil depois de três ou quatro convites que recusou, resolveu vir dar uma olhada nos outros países mais evoluídos como por exemplo, na Espanha que  ganhava sempre e disse, que “no meu clube implementei um projecto de jogo, desde os fraldinha (aqui em Portugal nem isso tem, que são crianças a começar a competir, com cinco anos) até aos seniores, com acompanhamento, ou seja o treinador que pega nas escolinhas vai seguindo a sua equipa até aos seniores. Segue com a equipa na subida de escalão” e acrescentou ele “ eu trabalho a formação não para terem algo remunerável, mas trabalho-a para serem seniores com ambições e condições de jogar em qualquer clube”.
Isso é muito importante?
Claro! Como acontece aqui, o jovem chega a sénior e diz eu vou para os seniores e sei que não vou jogar. Mas isto acontece tanto num grande clube como num pequeno clube de amadores. Enquanto no Brasil não há isso, um miúdo chega aos seniores e diz eu quero jogar e eu vou jogar. 
No meu caso, eu cheguei aos seniores e disse eu quero jogar. A questão passou a ser o que tenho que fazer para jogar? Foram as primeiras palavras que disse ao meu treinador, eu sei que joga “a” “b” e “c”, mas o que é que eu tenho que fazer para jogar? Primeiro treinar mais que eles para superar fisicamente a qualidade deles.
Mas isso é personalidade tua..
Mas incutida também pelos treinadores, porque eles no Brasil dão a oportunidade a todos e depois os jogadores é que mostram o seu valor e ambição, enquanto em Portugal o jovem tem que trabalhar para jogar e o que diz, ao que fala o treinador? Vou jogar para o meu clube de bairro, lá jogo sempre! Não têm ambições, porque não há base de trabalho de formação, mas tudo depende de cada jogador, do seu querer do seu objectivo, tem muito jogador que estão por estar, sem qualquer objectivo. 
Em Portugal os miúdos têm muito essa mentalidade, se não jogo aqui… jogo ali. Mas nunca diz eu quero jogar aqui! E para jogar aqui o que tenho que fazer?


TREINADOR
Para terminar, quando acabar o Ivan jogador, teremos o Ivan treinador?
Eu nem penso nisso, porque eu já tenho um desgaste muito grande a nível familiar, eu vivo do futsal desde os dezanove anos de idade. Eu estou casado há dezassete anos e há dezassete anos a minha mulher me atura a ir para o treino. A ir para Lisboa, a não estar no aniversário, a não estar no baptizado, a naos estar nisso, a não naquilo e agora trabalhando e treinando só tenho o domingo para estar com a minha família e só tenho esse dia para estar sentado com a minha família.
Vais pelo menos fazer férias?

Não digo que não gostaria ou que não vai ser , mas eu já lhes roubei muito, porque me dei muito ao futsal.

Entrevista de
Manuel Pina